Por: Silvio Teixeira
Diretor do MUPHI de Itapipoca
Lembro-me sempre com muito carinho de uma tarde do mês de março do ano de 2005, quando o Prefeito João Barroso recém eleito, chegando de uma visita à localidade sertaneja de Lagoa do Juá, adentra o gabinete da Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto com dois fragmentos de fósseis em suas mãos (esses dois ainda são guardados em um lugarzinho especial na reserva técnica do MUPHI), naquele instante não passou por nossas cabeças que aquelas mãos carregavam o que hoje é um dos destaques culturais de Itapipoca, uma referência do município em todo o Brasil.
Nunca pude esquecer as duas perguntas feitas pelo Prefeito que foram os pilares de construção do MUPHI: “o que era aquilo e o que poderia ser feito com aquilo”. Expliquei então ao prefeito que “aquilo” eram fósseis de animais que viveram em nosso território há muito tempo e que esse tipo de achado estava sendo “freqüente” em grandes fendas no sertão (eu ainda era, de certa forma, leigo no assunto). Mas o que fazer com “aquilo”, bom, isso eu ainda não sabia. Tinha certeza, e isso esclareci ao Prefeito, de que um geólogo chamado Celso Ximenes havia escavado uma dessas fendas no ano de 2001, eu tinha visto ele em uma visita às escavações naquele ano.
Sempre que lembro da cena que agora vou descrever, sinto uma sensação muito boa, como se entendesse que a vida tivesse naquele momento conspirado ao nosso favor: era uma manhã do mês de maio do mesmo ano e eis que adentrou naquele mesmo gabinete o paleontólogo de quem falara ao Prefeito, ele era o novo contratado da nossa Secretaria.
Com as habilidades e o conhecimento de Celso Ximenes foi questão de tempo para que, no dia 17 de outubro de 2005 o Prefeito sancionasse a Lei Municipal 51/2005 que criava o Museu de Pré-história de Itapipoca, órgão ligado a Secretaria de Cultura, Turismo e Desporto. Ainda no final deste ano o MUPHI realizaria sua primeira escavação paleontológica.
O Tanque Fossilífero Jirau I foi o jazigo escavado por Celso Ximenes, Sílvio Teixeira, Carlos Santos e Wagner Moura durante o final de novembro e início de dezembro daquele ano. Logo, os principais jornais escritos e os principais canais de TV do Estado do Ceará começaram uma ampla divulgação dos importantes achados fósseis no sertão de Itapipoca, projetando no Estado a nova instituição científica que se construía enquanto pesquisadora, conservadora e divulgadora de um rico campo de pesquisa.
O Prefeito João Barroso, um entusiasta do MUPHI, criou, no prédio da antiga rodoviária, um espaço para abrigar o material coletado em campo, surge assim o Departamento do Patrimônio Pré-histórico de Itapipoca, que no início do ano de 2006 teve a importante missão de abrigar fósseis e dar condições para que fossem feitos os trabalhos de higienização, classificação e acondicionamento de quase uma enorme quantidade de sedimento retirado de dentro do tanque Jirau I durante a escavação. Nesse mesmo ano iniciou-se uma bateria de exposições, sendo que a primeira aconteceu no prédio do CPTA na localidade praiana de Lagoa do Mato. Enquanto no prédio da antiga rodoviária, a população curiosa visitava diariamente o local para admirar os enormes ossos fossilizados de gigantes que viveram nesse território até dez mil anos antes do presente. Assim iniciou-se a disseminação do fazer “ciência” em Itapipoca.
Ainda no ano de 2006 o paleontólogo Celso Ximenes deixa seu cargo em Itapipoca para iniciar um mestrado na UFRJ, deixando o seu então assistente Sílvio Teixeira como responsável e guardião da coleção que agora começava a se formar. Com a ausência do paleontólogo problemas surgem: a equipe da escavação foi desfeita, a falta de recursos paralisa a evolução das exposições, e o pior de tudo, o número de fósseis se tornava cada vez mais crescente e já não dava para saciar a sede de conhecimento dos professores e estudantes de Itapipoca em relação aos fósseis, era preciso inovar. A exposição foi transferida para a sede da SECUTUDI, no centro da cidade, ficando lá até que a já extinta Rede Nacional de Paleontologia fizesse a doação equipamentos para o MUPHI.
No final do ano de 2007 o então secretário Paulo Maciel Júnior convence o Prefeito a montar a exposição permanente do MUPHI em uma sala no Shopping Classita, para onde os fósseis e equipamentos começam a ser transferidos. Somente no mês de dezembro foi possível abrir as portas de uma exposição mais planejada e com peças que por si só explicavam toda a história dos grandes mamíferos, mas surge outro elemento: o homem. Vestígios arqueológicos começam a surgir em meio as pesquisas e o homem pré-histórico tem seu lugar reconhecido dentro do MUPHI.
No ano de 2008 Sílvio Teixeira começa um trabalho de divulgação massiva em inúmeras palestras em escolas, visitas a sala de exposições e inicia uma trilha científica no sítio paleontológico Jirau. Também nesse ano Celso Ximenes pesquisa os arquivos do Museu Nacional e faz um resgate de documentos da escavação paleontológica realizada em Itapipoca pelo naturalista Carlos de Paula Couto no ano de 1961, esse documento tem mais de 260 páginas e foi um dos maiores resgates históricos de um único fato já registrado no município de Itapipoca. Iniciam-se as publicações em congressos de paleontologia pelo Brasil, o que ajuda a projetar ainda mais o nome do MUPHI e de Itapipoca no mundo científico na área de paleontologia.
O Iphan toma conhecimento da existência de uma vasta coleção arqueológica em Itapipoca sob a guarda do MUPHI, material esse encontrado dentro do território de Itapipoca, o órgão então faz o tombamento de toda a coleção, descrevendo e fotografando mil e vinte e seis peças arqueológicas, a maioria delas material indígena de antes da colonização européia. Universidades de outros estados começam a se interessar pela coleção e novas publicações de artigos científicos são feitas, fazendo com que a população local, principalmente estudantes universitários e professores reconheçam esse patrimônio científico como um tesouro cultural para ser estudado e conservado. No final de 2008 foram catalogados novos sítios arqueológicos com pinturas rupestres, tendo
a frente dessas expedições de identificação Sílvio Teixeira, já conhecido como Diretor do MUPHI e Benedito Freire, um amante da arqueologia em Itapipoca.
A partir do ano de 2009 atividades como a Semana Nacional de Museus e a Primavera dos Museus passam a fazer parte do quadro anual de atividades do MUPHI, esses eventos ajudaram a divulgar cada vez mais o conhecimento da ciência entre os jovens e adultos do município.
O ano de 2010 foi o ano em que o MUPHI mais se projetou em termos de publicação científica, principalmente por pesquisas realizadas a partir de uma nova classificação do material fóssil por Sílvio Teixeira e a identificação de mil peças pelo professor da PUC Castor Cartelli. A coleção tornou-se conhecida por ter mais de dez mil peças, sendo que quase 20% delas já catalogadas, essa catalogação é um trabalho desenvolvido a partir da nova gestão da Secretaria de Cultura e Turismo, o Secretário Alexandre de Sousa (Alex) teve a preocupação de manter o trabalho de tombamento em andamento, garantindo os subsídios necessários para o trabalho. A descrição das peças durante o tombamento foi feita por Sílvio Teixeira no primeiro semestre desse ano. Universidades federais como UFCE, UFRJ, UFRS e estaduais como EUCE, EURN e UEPB publicaram vários artigos científicos baseados no estudo da coleção do MUPHI. Artigos em jornal escrito TV e Internet tornaram-se rotineiros durante o último ano, projetando o MUPHI em um cenário nacional.
No ano de 2011, o Secretário de Cultura e Turismo Alexandre de Sousa (Alex) busca recursos junto ao Ministério do Turismo para a construção da sede definitiva do MUPHI. Um levantamento feito em documentos dos arquivos do museu mostra que, nos últimos dois anos, mais de cinco mil pessoas visitaram a exposição permanente no Shopping Clacita, ou estiveram em visitas aos sítios paleontológicos ou receberam a visita do Diretor do museu em suas escolas e universidades, através de exposições itinerantes e palestras. A última delas, durante a Semana Nacional de Museus no mês de maio, onde uma exposição dos 50 Anos da Expedição do Museu Nacional aos Tanques de João Cativo foi levada a oito escolas e uma universidade, além de divulgação em rádio e Internet.
Esta é uma história que está apenas começando. Ainda para o ano de 2011 o MUPHI lançará, pela primeira vez, artigos de paleontologia em congresso internacional, na Argentina. Um artigo de arqueologia inovador assinado por Sílvio Teixeira, sobre ferramentas líticas e cerâmica indígena em tanques fossilíferos promete desvendar novos conhecimentos sobre a idade do homem na região de Itapipoca e no final do ano uma escavação será realizada, dessa vez para a construção de uma tese de doutorado que envolverá cinco universidades brasileiras.
O Museu de Pré-história de Itapipoca é hoje um dos orgulhos da cultura itapipoquense, um ícone representativo do município e um dos projetos mais marcante do governo de João Barroso.
Sílvio Teixeira
Diretor do MUPHI